sexta-feira, 14 de junho de 2013

Greve #2: Motivos

Diálogos imaginários. Imaginemos os seguintes diálogos entre um professor e cidadão (alguém com capacidade de argumentar e perceber os contra-argumentos apresentados, sem se deixar contaminar pelas opiniões veiculadas pelos meios de comunicação social)

Se quisermos deixar de lado as questões económicas, as colocações a centenas de quilómetros de distância de casa, o pouco interesse dos alunos e dos pais, a falta generalizada de condições de trabalho que a maioria das escolas apresenta, são motivos para fazer a greve:

Professor: Pretendem aumentar o horário de trabalho para as quarenta horas semanais.

Cidadão: Mas os trabalhadores do privado trabalham as 40 horas.

Professor: Os professores também. Até muito mais do que as 40h que agora pretendem oficializar. Dessas horas há 22h horas lectivas que estão marcadas no horário (embora este ano tenha marcadas no horário 28h) e as restantes são componente não lectiva uma vez que se entende, e bem, que é necessário tempo de preparação das aulas, elaboração de materiais, elaboração e correcção de trabalhos, testes, questões de aula e afins. Ainda está por provar que o facto de se ter horas de trabalho, resulte num aumento de produtividade, havendo até a percepção de que o contrário será mais provável.

Cidadão: Então mas não achas injusto que uns trabalhem 40 horas e outros apenas 35h?

Professor: Acho. Por isso defendo a redução do horário de trabalho de todos os trabalhadores para as 35h. Isso iria contribuir para um aumento do emprego e consequente diminuição do desemprego em Portugal. Embora, não me pareça que o Governo esteja realmente preocupado com isso. Acresce que  por esse acréscimo de horas de trabalho, não está previsto o respectivo aumento salarial. O que significa na prática que te estão, mais uma vez, a reduzir o vencimento.

Cidadão: Sim, está bem, e isso é injusto, mas ainda assim não me parece motivo para prejudicar os alunos que precisam de fazer exames nacionais para entrar na Universidade.

Professor: e quem te disse que são prejudicados?

Cidadão: É o que se ouve na rádio, vê na tv, lê nos jornais... A maior parte das pessoas que conheço acham isso.

Professor: Pois é pena. Nenhum aluno vai deixar de fazer exames, na pior das hipóteses, vai fazê-los mais tarde, o que pode causar algum stress, mas ao mesmo tempo lhes dá mais tempo para se prepararem. Além disso, o MEC pode sempre alterar o calendário dos exames, para dias em que não haja greve. A greve aos exames só acontece no dia 17 de Junho. Os outros dias são de greve às avaliações. O que quer dizer que os exames decorrerão com normalidade uma vez que o MEC já decidiu admitir todos os alunos a exame condicionalmente. Não há prejuízo para os alunos. O próprio Colégio Arbitral presidido por um Juíz Conselheiro jubilado foi da opinião que não há lugar à marcação de serviços mínimos aos exames. Só mais uma coisa: Os professores também são prejudicados pela greve: Perdem o salário correspondente.

Cidadão: Ainda assim, os pais queixam-se do que isso poderá causar aos filhos, por estarem reféns dos professores.

Professor: Xiiiii! Tanto que há para dizer sobre isso... Onde estavam os pais, quando os governos acabaram com os pares pedagógicos? Isso não foi comprometedor para a qualidade do ensino? E quando o Governo alterou os currículos e terminou com as áreas disciplinares de Estudo Acompanhado e de Formação Cívica? Isso não prejudicou os alunos? Não em lembro de ouvir os pais queixarem-se quando as cargas horárias das disciplinas foram alteradas e os programas curriculares foram mantidos, fazendo com que algumas matérias fossem dadas "pela rama" ou, muito simplesmente, não fossem dadas por falta de tempo. E quando o racio de alunos/auxiliar de ação educativa cresceu para 100 para um? Onde estavam os pais? E o no aumento de alunos por turma? Não se queixaram? Não é melhore ter turmas de vinte alunos em vez de termos turmas de trinta alunos? Não há mais probabilidades de sucesso escolar quando os grupos de alunos são menores? Já reparaste que quando os miúdos têm "explicações" os grupos são sempre muito reduzidos? Porque será? Nessa altura ouviste pais a queixarem-se? Não quiseram defender os interesses dos filhos nessa altura? É que em todas estas ocasiões os filhos foram claramente prejudicados. São os professores que estão a prejudicas os alunos? Não me parece... Nós precisamos de todos, colegas, pais e alunos e até (imagine-se!) do Ministério para melhorar as condições das escolas, do ensino. Não estamos a prejudicar alunos. Estamos a defendê-los! A eles e à Escola Pública.

Cidadão: Dito assim, parece outra coisa, na verdade...

Professor: Não parece. É! Infelizmente os órgãos de comunicação social generalistas passam as notícias de acordo com o ângulo que mais lhes interessa, tomando partido e escolhendo lados, esquecendo que deveriam informar e que isso se faz apresentando factos e argumentos de forma isenta. Na verdade,  contribuem muitas vezes para a desinformação com análises parciais.

Cidadão: Então e que mais motivos existem para fazer greve?

Professor: Bem, posso sempre referir a Mobilidade Especial que vai mandar para o desemprego mais uns milhares de funcionários públicos...

Cidadão: Mas se vão para a mobilidade especial é porque não têm horário na escola. Se não têm horário, não estão lá a fazer nada, porque não irem embora?

Professor: Porque esses professores só são dispensáveis por opção política. Porque, por exemplo, com o aumento da carga horária para as 40 horas, há professores que vão passar a ter oito, nove, dez ou onze turmas. Tens ideia do que é teres onze turmas de trinta alunos? Estás a imaginar o estado em que se chega ao final de uma semana em que tens de dar aulas a onze turmas diferentes? Em que nem tens tempo para saber o nome dos alunos, quanto mais de te aperceberes das necessidades que eles têm!

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